Jack London e “O Lobo do Mar”

A história de Jack London, autor de “O Lobo do Mar” (The Sea Wolf) é possivelmente quase tão emocionante e agitada quanto os personagens que o autor construiu nos romances de aventura. No início do século XX, o cinema ainda não havia se popularizado e absolutamente ninguém sonhava que um dia poderia existir algo como “Netflix”. A população, porém, precisava consumir histórias incríveis, para passar seu tempo, a fim de que as mentes saíssem um pouco do circuito trabalho-casa, como quiçá ocorre em todas as épocas.

Neste tempo, os métodos de impressão estavam melhorando e os editores precisavam de bons escritores e jornalistas. Um deles foi Jack London, cujas histórias mais se confundiam com sua experiência pessoal e personagens da vida real que encontrou em sua curta jornada em vida (morreu em 1916, aos quarenta anos).

Iustração de William James Aylward

London nasceu em fins do século XIX. Seus pais tinham uma “clínica” na qual forneciam “assessoria espiritual” ao público supersticioso de São Francisco, Califórnia, recebendo auxílio de um médium indígena chamado Plume.

Adotado por John London, que tinha como pai, após seu pai biológico deixar sua família, só veio a descobrir tal fato quando adulto, pesquisando nos arquivos da cidade.

Morador de um bairro portuário, West Oakland, ainda jovem e andando pelos bares da região, cheios de marujos, chineses, italianos e estivadores que por ali bebiam, brigavam e contavam lorotas, London cresceu e conheceu inúmeros personagens, tornando-se, ele mesmo, por um certo tempo, um pirata dos mares, roubando crustáceos e outros frutos do mar, ganhando bem mais que em seu antigo trabalho.

Terminou mudando de ramo e embarcou no navio Sophie Sutherland, com destino ao mar de Bering, para caçar focas. Chegou a ser preso, embarcou na corrida ao ouro no Alaska (Klondike), casou-se e passou a ganhar renome como escritor. Chegou a cobrir, direto do front, a guerra russo-japonesa na Coreia e no Japão, pelo jornal San Francisco Examiner, do magnata William Randolph Hearst.

Bebeu de diversas fontes, dentre os quais Herbet Spencer, John Milton, Charles Darwin, Karl Marx, Herman Melville (Moby Dick) e Friedrich Nietzsche. Publicou contos e diversos livros. Não era uma pessoa perfeita, adotando diversas concepções hoje consideradas inaceitáveis, como a eugenia. Confundira, infelizmente, os conceitos de luta pela sobrevivência com os ultrapassados conceitos do darwinismo social.

Foi, no entanto, um grande escritor, sendo “O Lobo do Mar” uma das suas grandes obras.

O Lobo do Mar (The Sea-Wolf)

Primeira publicação: 1904 (Editora Macmillan).

Autor: Jack London.

Idealização: durante a viagem ao Japão, em 1893, a bordo do Sophie Sutherland.

Tema: a luta pela sobrevivência numa escuna de caça às focas.

Principais personagens: Wolf Larsen, Humphrey van Weyden e Maud Brewster.

Edição lida: 2013. Editora ZAHAR.

Tradução: Daniel Galera.

Apresentação: Jack London – Muitas vidas em uma (por Joca Reiners Terron)

O livro foi datilografado, revisado e criticado pela segunda esposa de London, Charmian.

Wolf Larsen (wolf, em português, lobo) é o grande personagem da trama, aquele que personifica a luta pela sobrevivência, a extrema violência, o personagem provavelmente imaginado em decorrência das leituras de Friedrich Nietzsche e de personificações reais que London conheceu em suas vivências dentre piratas. Diz-se que há algumas semelhanças com suas viagens no Sophia Sutherland.

É interessante perceber que Nietzsche e Schopenhauer são mencionados logo no início do romance.

“O romance também contém referências a Herbert Spencer nos capítulos 8, 10, Charles Darwin nos capítulos 5, 6, 10, 13, Omar Khayyam nos capítulos 11, 17, 26, Shakespeare no capítulo 5 e John Milton no capítulo 26.”

Inicia a trama quando o jovem Humphrey (Hump), crítico literário, naufraga em um acidente de balsa, sendo resgatado pelo Capitão do veleiro Ghost.

Trata-se de uma obra que mistura aventura, desespero e psicologia. Os personagens vêem-se às voltas com situações inesperadas e arrebatadoras, desde o caso do naufrágio do Martinez, passando pela caça às focas em alto mar, até o romance inesperado com a poetisa à bordo (Maud Brewster). No momento em que a escritora adentra na trama, passa-se a sentir uma tensão entre os personagens, fruto da inesperada presença feminina em um navio de marmanjos e marujos.

Poster do filme The Sea Wolf (1920)

Larsen, o forte, nórdico e animalesco capitão do Ghost, mantém sua tripulação nos trilhos usando de enorme poder psicológico, decorrente de sua brutalidade e violência extrema. Isso não quer dizer que seja um homem inteiramente ruim e ignorante; na verdade, detém um vasto conhecimento de vida e leituras, tendo aprendido de forma autodidata muito sobre matemática, ciência, literatura, filosofia e tecnologia.

Por sua vez, Humphrey é praticamente forçado a se tornar duro e autossuficiente para sobreviver à vida entre os marujos em alto-mar.

Nesta perspectiva, o livro percorre o arco de superação pessoal e psicológica de Humphrey, sendo este o principal personagem no quesito evolução pessoal, e por meio do qual a perspectiva histórica é vista. Por meio dos pensamentos e olhos deste, a trama se desenvolve com elevado grau de maestria.

É interessante perceber que, não obstante a violência e amoralidade de Larsen, ao reconhecer as potencialidades de Hump, trata-lhe muitas vezes como um filho ou aprendiz (ou, um bobo da corte, aos olhos de Hump), ensinando-lhe diversos aspectos da navegação e gerenciamento da embarcação.

Muitos são os ingredientes da história. As aventuras em alto-mar impressionam, a coragem dos personagens, sendo esta muitas vezes decorrente da necessidade de sobrevivência, o enfrentamento de nevoeiros, ondas gigantes e tempestades em uma embarcação relativamente frágil, de madeira, movida a vento, requentados com a artimanha de um motim contra um poderoso capitão, dentre outros aspectos novelescos. Quando os homens descem em alto-mar, à procura das focas, em botes frágeis diante do enorme poder da natureza, e não retornam, perdem-se, ou não mais são encontrados, a face do perigo aparece bastante clara.

O modo como Wolf Larsen desdenha das pessoas, seu cinismo, desprezo por direitos ou convenções sociais, momento em que praticamente prende os náufragos nas dimensões do Ghost, sem deixá-los em um porto seguro e estes passam a acompanhar, sem opções, a rotina da escuna, em situação comparavelmente próxima a escravidão ou servidão, as mais variadas situações e aventuras, gera no leitor um certo desconforto e, ao mesmo tempo, empolgação para saber sempre os próximos passos.

Desenho do capitão Wolf Larsen, publicada pela Century Company, NY, 1921

Sim, os náufragos passam a ser alvo do temperamento inoportuno e psicótico de Wolf Larsen, gerando no leitor um sentimento de angústia, e nos personagens a possibilidade de ultrapassarem o limite psicológico e convencional, por muitas vezes querendo ou sonhando em matar seu superior e opressor.

Há de certa forma uma tonalidade de crítica ao sistema capitalista, no comportamento de Wolf, visto que ele maltrata seus subordinados em vários aspectos, chegando a aparentar que deles permite a sobrevida somente quando convém aos seus lucros (essa visão pode parecer equivocada ao se entender os profundos meandros psicológicos embutidos). Afinal, ele precisa capturar focas para vender insumos em terra firme; o capitão depende de seus homens.

Várias foram as adaptações para o cinema deste clássico, dentre as quais a de 1913, 1920 e 1926 (cujas cópias foram perdidas), todas estas certamente em domínio público, além de posteriores e mais modernas, inclusive uma de 1993 (para a TV), estrelado por Christopher Reeve (de Superman) e Charles Bronson, entretanto, nenhuma se tornou um blockbuster.

O SCRIBASE não localizou estas obras cinematográficas antigas, em domínio público, na Internet. Caso algum leitor localize-as, favor postar o link correspondente, ou nos fornecer por mensagem.

Uma grande aventura marítima escrita pelo magnífico London, expert em aventuras e psicologia prática, leitor de diversos filósofos de sua época, merecendo ainda uma adaptação cinematográfica à altura.

———-Fim———-

Post Scriptum:

Gravuras (em domínio público), atribuições (Wikimedia Commons):

Drawing of Capt. Wolf Larsen from The Sea Wolf

Poster for the American film The Sea Wolf (1920) with Mabel Julienne Scott and Noah Beery

Sailors in the Ghost

A Coasting Schooner

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